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terça-feira, 26 de Junho de 2012

CURVA DE PHILLIPS

introducao
O modelo keynesiano simples, exposto no texto anterior, mostra que a insuficiência de
demanda agregada (gastos de consumo, mais gastos de investimento, mais gastos do governo,
numa economia fechada) leva a uma situação em que o produto efetivo é inferior ao produto
potencial (ou seja, inferior à capacidade de produção, ilustrada pela curva de possibilidades de
produção). Nesse caso, haverá subutilização de fatores de produção e, em particular, desemprego
de mão-de-obra. Por outro lado, se há um excesso de demanda, em relação à capacidade de
produção, isso produzirá inflação.
Pode-se supor, assim, que haja uma relação inversa entre os níveis de desemprego e de
inflação. Essa relação, na forma indicada no gráfico abaixo, foi verificada em muitos estudos
empíricos, tendo sido pioneiro o publicado, em 1958, pelo economista neozelandês A. W. Phillips.
Em decorrência disso, a curva abaixo ficou conhecida como Curva de Phillips.

 A Curva de Phillips
Phillips examinou, de fato, a relação entre taxas de desemprego e taxas de aumento dos
salários nominais, usando dados para o Reino Unido, relativos ao período de 1861 a 1957. Mas a
maioria dos trabalhos posteriores focalizou a relação entre desemprego e inflação de preços, em
lugar de inflação de salários. Assim, quando se fala em Curva de Phillips, tem-se em mente, em
geral, uma relação inversa entre o nível de desemprego e o nível de inflação.
Estudos para vários países — além do de Phillips — constataram, de fato, movimentos em
sentido oposto das taxas de inflação e de desemprego, ao longo do tempo, pelo menos no período
até o final da década de 1960. Em termos de política econômica, isso podia ser interpretado como a
expressão de uma alternativa implícita, para as autoridades econômicas (um trade-off ), entre a
eliminação da inflação e a eliminação do desemprego. O que uma relação como a expressa pela
curva abaixo indicaria é a necessidade de chegar a um meio-termo: para obter uma redução do
desemprego a um dado nível, seria preciso conviver com a correspondente taxa de inflação. Ou,
simetricamente: para se ter uma inflação baixa, seria necessário aceitar um menor nível de

emprego. A sociedade deveria decidir qual a combinação aceitável das duas taxas.
Gráfico 1 – A Curva de Phillips: taxa de inflação x taxa de desemprego

 Emprego e inflação de demanda
Uma interpretação simples do significado econômico da Curva de Phillips está associada aos
efeitos do aumento num dos componentes autônomos da demanda agregada (v. o texto
“Macroeconomia”, de Roberto Ellery Jr., para definição de gasto autônomo). Suponha, por
exemplo, que ocorra uma expansão dos gastos de investimento; mais concretamente, imagine que,
numa determinada cidade, põe-se em operação uma fábrica de sapatos. Para a construção e
instalação dessa fábrica, serão contratados trabalhadores locais. Supondo que esses cidadãos
estivessem antes desempregados (vivendo com os pais, por exemplo), reduzir-se-á, em
consequência, a taxa de desemprego nessa localidade.
Ao aumento de emprego corresponde um aumento de renda e, portanto, de consumo. Com
mais dinheiro no bolso, os novos trabalhadores modificarão seus hábitos de consumo: poderão ir
ao cinema, frequentar o shopping, renovar seu guarda-roupa, comer em restaurantes; onde se
bebia água durante as refeições, passa-se a beber refrigerante ou suco; e assim por diante. Haverá
um deslocamento para a direita nas curvas de demanda por tais bens ou serviços.
Esse deslocamento nas curvas de demanda vai alterar o preço de equilíbrio, nos mercados
respectivos. A magnitude do efeito sobre os preços vai depender de vários fatores: a extensão do
incremento na demanda, o nível de concorrência no mercado considerado, a elasticidade da oferta,
etc. Mas haverá, em geral, uma pressão no sentido do aumento nos preços, como indicado no
Gráfico 2. Se isso se der num número significativo de mercados, haverá tendência a uma inflação de
demanda.

Gráfico 2 – Deslocamento na demanda e preço de equilíbrio
 (No Gráfico 2, a curva de demanda se desloca para direita e para cima, de D para D’, o que
provoca uma elevação na quantidade demandada de Qeq para Qi e no preço de equilíbrio de Peq
para Pi).
Havendo aumento generalizado de preços, ou seja, inflação, o efeito geral das
transformações ocorridas na economia considerada, em consequência do aumento de gastos de
investimento, será o indicado na Curva de Phillips do Gráfico 3. O período inicial corresponde ao
ponto A, e o período posterior à efetivação do investimento ao ponto B. Passa-se de uma situação
de maior desemprego e menor inflação para uma situação de menor desemprego e maior inflação.

Gráfico 3 – Deslocamento ao longo da Curva de Phillips

 É claro que uma redução posterior de renda na cidade em questão, por qualquer motivo,
poderia provocar um movimento oposto, de B para A.

A Ação Governamental
Na visão de Keynes, como vimos, as decisões de investimento são muito influenciadas pelas
expectativas dos investidores quanto ao futuro, de tal forma que os gastos de investimento são
vistos como um componente exógeno da demanda agregada, pouco influenciável por decisões de
política econômica. Ações deliberadas no sentido de uma redução do desemprego dependeriam,
assim, de intervenções diretas do governo, seja no sentido de um aumento em seus próprios
gastos, seja buscando aumentar os gastos de consumo, pela redução de impostos.
Nesse sentido, a determinação do ponto da Curva de Phillips em que uma dada economia se
situasse resultaria da atuação do governo, a partir de uma escolha social quanto às alternativas de
inflação e desemprego. Em situações em que o nível de demanda agregada acarretasse baixa
produção e uma taxa de desemprego julgada inaceitável, o policy maker poderia, por meio de
medidas que levassem ao aumento de gastos, diminuir o percentual de desempregados, aceitando
em contrapartida uma taxa de inflação maior. Ao contrário, numa conjuntura em que a inflação
superasse um patamar suportável, promover-se-ia um corte de gastos, o que causaria
deslocamentos para a esquerda nas curvas de demanda, e assim queda nos preços, na produção e,
consequentemente, no emprego. Essa política representaria uma opção por menor inflação e
maior desemprego.

 Curva de Phillips: outras interpretações
Com o aumento dos níveis mundiais de inflação na década de 1970, seguindo-se aos
choques do petróleo, as relações antes observadas entre inflação e desemprego, a partir da
determinação empírica de Curvas de Phillips, em geral deixaram de ser observadas. Por exemplo:
para um dado nível de desemprego, verificavam-se, nessa fase, taxas de inflação mais altas do que
as constatadas nos anos anteriores a 1970. Aparentemente a Curva de Phillips deslocava-se para
cima.
Uma possível explicação para isso partiria da introdução de um elemento antes não
considerado nas teorizações sobre a Curva de Phillips: as expectativas quanto à inflação futura (que
estariam mais altas, nos anos setenta). Vários economistas, como Milton Friedman1, argumentaram
que a relação entre inflação e desemprego, levando em conta os mecanismos de fixação de salários
no mercado, dependeria crucialmente das expectativas de inflação.
Essa reconsideração da análise da Curva de Phillips se fez no bojo do desenvolvimento de
novas teorias macroeconômicas, fenômeno observado a partir da década de 1970, após um
período em que as ideias de Keynes dominaram amplamente o pensamento econômico. Essas
novas formulações representam, em parte, uma volta às concepções dos economistas “clássicos”,
tendentes a favorecer, em termos de política econômica, os mecanismos de mercado, em
detrimento de intervenções governamentais (que são centrais no sistema keynesiano, como
vimos). A análise dos chamados “novos clássicos” dá grande importância, entre outros fatores, a
uma ligação entre a macroeconomia e a microeconomia, procurando estabelecer, com cuidado, os
fundamentos microeconômicos das análises macro.
De outra parte, o período atual presencia também uma renovação e atualização do
pensamento keynesiano: os “neokeynesianos” procuram conciliar a visão geral de Keynes com os
desenvolvimentos analíticos recentes.
Não cabe, num curso introdutório, entrar em detalhes sobre as controvérsias da
macroeconomia atual. Em termos muito gerais, pode-se repetir o que já foi dito em texto anterior
da disciplina: os princípios da análise keynesiana são úteis para entender fenômenos importantes
do curto prazo, como as oscilações da atividade econômica, e fundamentam políticas anticíclicas
freqüentemente adotadas. Por outro lado, a análise clássica (e “novo-clássica”) ilumina tendências
de longo prazo da economia, indicando inter-relações fundamentais entre variáveis e esclarecendo
a operação dos mecanismos de mercado.

Bibliografia:
CASTRO, Steven. Taxa de juros do BC como Política Anti-inflacionária. Apostila de Introdução a
Economia - UnB.
PEARCE, David W. The MIT dictionary of modern economics. MIT Press Edition. Cambridge,
Massachusets: 1994.
ELLERY, Roberto. Macroeconomia. Apostila de Introdução a Economia - UnB.
SACHS, Jeffrey D. & LARRAIN, Felipe. Macroeconomics in the global economy. Prentice-Hall Inc.,
1993.
SERRANO, Franklin. O dilema entre inflação e desemprego. Revista Ciência Hoje. Vol. 39.
Dezembro, 2006. Sinergia Gráfica e Editora Ltda. p. 16-17.
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